Queda gradual dos juros é esperada, mas ajuste fiscal segue como ponto crítico, aponta a XP Investimentos
Mesmo diante de um ambiente político conturbado, tanto no cenário internacional quanto doméstico, a XP Investimentos avalia que a economia brasileira deve atravessar 2026 com um grau razoável de estabilidade. As recentes movimentações dos Estados Unidos em relação à Venezuela e a aproximação do calendário eleitoral no Brasil aumentam a incerteza política, mas, segundo o banco, os fundamentos econômicos permanecem relativamente previsíveis.
Inflação em desaceleração e crescimento mais moderado
Com a atividade econômica perdendo fôlego, a XP projeta que o Produto Interno Bruto cresça cerca de 2,3% em 2025, abrindo espaço para uma desaceleração inflacionária mais consistente ao longo de 2026. A combinação entre a valorização tardia do real, a redução nos preços de bens importados e a queda nos alimentos contribuiu para esse movimento de alívio nos índices de preços.
Esse ambiente mais benigno, segundo os analistas, cria condições para uma política monetária menos restritiva nos próximos meses.
Banco Central deve iniciar cortes graduais na Selic
A maior previsibilidade do cenário macroeconômico deve permitir ao Banco Central dar início a um ciclo de redução da taxa básica de juros a partir de março. A expectativa da XP é que ocorram cinco cortes consecutivos de 0,50 ponto percentual, levando a Selic a 12,50% ao final de 2026, com uma pausa no segundo semestre para avaliação do cenário.
Política fiscal segue sob controle, mas gastos preocupam
No campo fiscal, a análise é de relativa estabilidade no curto prazo. Após o cumprimento da meta fiscal no ano anterior, sustentado em parte por receitas extraordinárias, a aprovação de novas medidas de arrecadação tende a reforçar o caixa do governo em 2026.
A XP estima um déficit total de R$ 45,8 bilhões no próximo ano, equivalente a 0,3% do PIB. Quando desconsideradas as despesas fora do arcabouço fiscal, o cenário aponta para um superávit primário de R$ 4,0 bilhões, próximo de zero em relação ao PIB.
Ainda assim, o banco chama atenção para o nível elevado dos gastos públicos. A ampliação das despesas discricionárias aprovada pelo Congresso, em detrimento das obrigatórias, mantém a pressão sobre o orçamento e reforça a necessidade de ajustes estruturais.
Riscos fiscais e cenários para os juros a partir de 2027
Na ausência de reformas e diante de uma eventual postura populista durante o ciclo eleitoral, o cenário mais pessimista da XP indica risco de crise fiscal e aceleração da inflação a partir de 2027. Em uma projeção intermediária, com medidas de contenção de despesas adotadas, mas ainda insuficientes para garantir a sustentabilidade das contas públicas, a taxa Selic poderia encerrar 2027 em torno de 11%.
Estímulos sustentam demanda, mas crescimento perde força no longo prazo
Apesar da expectativa de juros menores, o relatório destaca que políticas de estímulo aprovadas pelo governo devem manter a demanda doméstica aquecida. Entre os principais vetores estão a reforma do Imposto de Renda da Pessoa Física, programas como o Novo Crédito Imobiliário e o Reforma Brasil, além da ampliação do crédito para pessoas jurídicas.
Com base nesses fatores, a XP projeta crescimento de 1,7% para o PIB em 2026, com riscos inclinados para cima. Ainda assim, o banco alerta que, mesmo com a flexibilização monetária ao longo de 2026 e 2027, os juros devem permanecer elevados em termos históricos.
Para 2027, em um ambiente marcado por condições financeiras mais restritivas e incertezas quanto à consolidação fiscal, a expectativa é de um crescimento ainda mais fraco. A projeção é de avanço de 1,2% do PIB, abaixo do potencial estimado de 2,0%.
Diante desse quadro, os analistas avaliam que 2027 será decisivo para a agenda de reformas. Independentemente do governo eleito, será necessário reduzir despesas para preservar o arcabouço fiscal e conter o avanço da dívida pública, ainda que as medidas iniciais não sejam suficientes para estabilizá-la plenamente.
Eleições de 2026 elevam volatilidade política
No cenário político, a instabilidade tende a se intensificar. No plano internacional, os desdobramentos da atuação dos Estados Unidos em relação à Venezuela seguem incertos, dificultando a mensuração dos impactos para a América Latina e para o Brasil.
Internamente, o foco se volta para as eleições presidenciais. Os primeiros meses do ano devem ser marcados pelos movimentos da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, que busca se consolidar como possível sucessor do ex-presidente Jair Bolsonaro. A força dessa articulação deverá influenciar o posicionamento dos partidos de centro-direita.
Paralelamente, o presidente Lula trabalha para manter e ampliar os níveis de popularidade recuperados ao longo do último ano. As políticas públicas adotadas ao longo de 2026 devem ser determinantes para esse processo. Segundo a XP, o desfecho da disputa eleitoral tende a permanecer indefinido até os meses finais da campanha.
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