A trajetória do dólar frente ao real voltou a chamar atenção do mercado em fevereiro. Mesmo com a moeda americana registrando recuperação mensal diante de divisas fortes, impulsionada por tensões geopolíticas no exterior, o cenário foi diferente no Brasil. Por aqui, o câmbio acumulou nova desvalorização, aproximando-se de R$ 5,13 e renovando mínimas não vistas desde maio de 2024.
Analistas avaliam que ainda existe espaço para o dólar recuar mais no curto prazo, embora o cenário eleitoral e os riscos fiscais possam limitar movimentos mais intensos ao longo do ano.
Por que o dólar caiu frente ao real?
O principal motor da valorização do real foi o fluxo estrangeiro consistente para a B3 e demais ativos brasileiros. O interesse de investidores internacionais aumentou diante de sucessivos recordes do Ibovespa e da percepção de que as ações locais seguem com valuation atrativo.
Esse movimento elevou a entrada de capital externo e ampliou a oferta de dólares no mercado doméstico, favorecendo a apreciação da moeda brasileira. Em paralelo, o ambiente global de maior apetite por risco também colaborou para sustentar a tendência.
Política monetária no radar
No cenário interno, as atenções continuam voltadas para a condução da política monetária. Os dados recentes de inflação mantiveram o debate sobre o momento adequado para o início e o ritmo de cortes na Selic.
Segundo análise da Zero Markets, apesar de ruídos envolvendo o Banco Central, o mercado preservou relativa confiança na autoridade monetária. Essa percepção ajudou a manter o prêmio de risco doméstico sob controle, contribuindo para o fortalecimento do real.
Cenário externo e diferencial de juros favorecem o real
De acordo com o Itaú, a combinação de um ambiente internacional mais benigno, prêmio de risco doméstico ainda contido e amplo diferencial de juros permitiu que o real fosse negociado em níveis mais valorizados no início do ano.
O banco destaca que, embora a moeda brasileira tenha se beneficiado dos fluxos estrangeiros e do apetite global por risco, o aumento esperado do prêmio de risco local às vésperas das eleições tende a pressionar o câmbio no restante do ano.
Mesmo após revisar suas projeções para baixo, o Itaú ainda projeta o dólar acima dos níveis atuais: estimativa de R$ 5,40 em 2026 e R$ 5,60 em 2027.
Eleições podem levar o dólar abaixo de R$ 5?
O Morgan Stanley também aponta que o comportamento do real está fortemente condicionado às expectativas eleitorais. Para a instituição, pesquisas recentes indicam apoio relevante a um cenário considerado mais responsável do ponto de vista fiscal.
Caso essa tendência se mantenha, o banco avalia que o dólar pode recuar para abaixo de R$ 5 antes das eleições de outubro, em linha com um cenário mais otimista. A instituição ainda minimiza preocupações com o próximo ciclo de afrouxamento cambial do Banco Central, destacando a atratividade do carry trade brasileiro em comparação a outras moedas.
Há espaço para mais queda no primeiro semestre?
Na visão do Banco Pine, o dólar ainda pode se aproximar de R$ 5 ao longo do primeiro semestre, considerando o cenário atual. Os economistas observam que a economia dos Estados Unidos pode atravessar um período de desaceleração pontual, com inflação persistente, mas com perspectiva um pouco mais favorável para o PIB no início de 2026.
Para o real, a avaliação é de manutenção de condições favoráveis no curto prazo. Contudo, o segundo semestre pode trazer riscos moderados, principalmente ligados às incertezas sobre política tarifária.
O banco mantém a projeção de valorização do real para perto de R$ 5 por dólar ainda neste semestre e estima taxa média de R$ 5,21 em 2026, sustentada por fatores domésticos e externos considerados positivos.
O que esperar do câmbio nos próximos meses?
O cenário atual sugere que o real segue respaldado por fluxo estrangeiro, diferencial de juros elevado e percepção relativamente estável de risco no curto prazo. Ainda assim, fatores como eleições, prêmio de risco e ambiente internacional podem alterar a dinâmica ao longo do ano.
A possibilidade de o dólar testar o patamar de R$ 5 não está descartada por parte dos analistas, especialmente antes do evento eleitoral. Porém, projeções de médio prazo ainda indicam tendência de valorização da moeda americana frente aos níveis atuais.
Em resumo, o câmbio deve continuar sensível às expectativas políticas e econômicas, tanto no Brasil quanto no exterior, exigindo atenção redobrada de investidores e empresas expostas à variação do dólar.
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