2026 pode ser um ano “Goldilocks” para tecnologia e IA
O avanço da inteligência artificial tem redesenhado o cenário econômico global e deve continuar influenciando fortemente as decisões de investimento em 2026. A avaliação é de Gustavo Medeiros, head de macro global da Ashmore, especialista em mercados emergentes e baseado em Londres.
Na visão do economista, o próximo ano reúne condições que lembram o chamado ambiente “Goldilocks”, expressão utilizada para definir um contexto de crescimento consistente, sem pressões excessivas de inflação. Trata-se de um equilíbrio raro, mas bastante favorável ao fluxo de capital, sobretudo para setores ligados à tecnologia e à inteligência artificial.
Para Medeiros, há um fator praticamente incontornável nessa equação: a corrida tecnológica entre grandes potências. Segundo ele, é difícil imaginar um cenário em que China e Estados Unidos reduzam ou interrompam seus aportes em IA. O investimento contínuo dessas economias tende a sustentar o ritmo global de inovação e a manter o tema no centro das estratégias de alocação de recursos.
Monetização e limites físicos podem moderar o ritmo
Apesar do otimismo com o volume de aportes, o especialista pondera que nem tudo depende apenas de disposição financeira. A capacidade de transformar inovação em receita efetiva ainda é um desafio para muitas companhias.
Além disso, há restrições concretas que podem desacelerar o crescimento do CAPEX em tecnologia. Questões relacionadas à disponibilidade de energia, semicondutores e outros insumos estratégicos funcionam como gargalos potenciais. Mesmo com forte demanda por inteligência artificial, limitações estruturais podem impor um ritmo mais gradual à expansão.
Esse equilíbrio entre entusiasmo e restrição ajuda a explicar por que o cenário é considerado positivo, mas delicado. O crescimento existe, porém depende de fatores macroeconômicos, logísticos e regulatórios.
IA e mercado de trabalho: impacto maior entre jovens
Outro ponto relevante destacado por Medeiros é a relação entre adoção acelerada de inteligência artificial e dinâmica do emprego, especialmente entre os mais jovens.
De acordo com sua análise, países que avançaram de forma mais intensa na incorporação de IA apresentam uma correlação significativa com aumento do desemprego na população jovem. O Reino Unido é citado como exemplo, onde a taxa de desemprego entre homens jovens chega a cerca de 15%, mesmo em um contexto de crescimento econômico agregado.
Esse movimento revela uma transformação estrutural. Ao mesmo tempo em que a economia como um todo se expande, determinadas faixas do mercado de trabalho enfrentam maior competição e substituição por tecnologia. Para empresas e formuladores de políticas públicas, o desafio passa a ser conciliar ganhos de produtividade com inclusão e requalificação profissional.
Desinflação e possível corte de juros nos EUA e Reino Unido
O ciclo de investimentos em tecnologia tende a gerar efeitos adicionais sobre a inflação. Segundo Medeiros, a ampliação da produtividade impulsionada por Inteligência Artificial pode contribuir para um ambiente de desinflação, abrindo espaço para flexibilização monetária.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve opera com metas explícitas de inflação em torno de 2% e pleno emprego. Já no Reino Unido e em diversas outras economias, embora o mandato não seja idêntico, a taxa de desemprego também influencia decisões sobre política monetária.
Caso o avanço tecnológico ajude a conter pressões inflacionárias, bancos centrais podem ser levados a reduzir juros. Esse movimento reforça o ambiente considerado favorável para ativos de risco, especialmente ações de tecnologia e empresas ligadas à inteligência artificial.
Empresas de software enfrentam ganhos e pressões
No âmbito corporativo, o impacto da IA é direto. Companhias de software e programação tendem a se beneficiar do aumento de investimentos em tecnologia, com crescimento de receitas impulsionado por novos projetos e soluções baseadas em automação.
Ao mesmo tempo, a necessidade de eficiência operacional pode resultar em ajustes no quadro de funcionários. Profissionais mais jovens e em início de carreira podem sentir mais intensamente essa transição, sobretudo em funções suscetíveis à automação.
Medeiros observa que o mercado acionário pode permanecer aquecido por causa do CAPEX elevado, mesmo com enfraquecimento gradual do mercado de trabalho. Essa combinação ajuda a sustentar a desinflação e mantém o debate sobre produtividade no centro das análises.
Empresas que utilizam inteligência artificial para automatizar processos tendem a ampliar margens e melhorar indicadores financeiros. Já aquelas que dependem fortemente de mão de obra especializada, sem ganhos equivalentes de eficiência, podem enfrentar maior pressão competitiva.
Valuation e seleção de ativos exigem atenção redobrada
Para investidores, o momento exige uma leitura detalhada dos fundamentos. Não basta apostar genericamente em tecnologia ou inteligência artificial. É fundamental avaliar valuation, capacidade de execução e potencial real de adoção tecnológica.
Medeiros menciona casos como o da Vale, cujas ações negociadas sob o ticker VALE3 já apresentam preços considerados esticados. O exemplo ilustra como o entusiasmo pode levar a múltiplos elevados, exigindo cautela adicional.
Além disso, segmentos que lideram inovação, como os chamados hyperscalers, concentram grande parte dos fluxos de capital. Enquanto isso, setores tradicionais encontram maior dificuldade para acompanhar o ritmo de transformação digital.
A inteligência artificial, portanto, não está apenas alterando a operação interna das empresas de software. Ela também influencia o comportamento de investidores globais, redefinindo prioridades, alocação de recursos e percepção de risco.
O que esperar do mercado global de tecnologia
O panorama para 2026 combina crescimento robusto, avanço tecnológico acelerado e desafios no mercado de trabalho. A inteligência artificial segue como protagonista dos investimentos, impulsionando CAPEX e produtividade.
Por outro lado, limitações físicas, riscos geopolíticos e possíveis distorções no mercado de trabalho impõem cautela. Para gestores e investidores, o equilíbrio entre oportunidade e risco será determinante.
Em um ambiente global cada vez mais orientado por dados e automação, compreender o impacto macro e microeconômico da IA pode ser o diferencial entre capturar valor ou sofrer com ajustes de mercado.