Real ganha força no mercado Real ganha força no mercado

Real ganha força em meio à volatilidade global

Mesmo com o dólar se fortalecendo no cenário internacional, o comportamento recente do mercado de câmbio mostra um movimento distinto nas economias emergentes. O real e outras moedas latino-americanas apresentaram valorização consistente nas últimas semanas, impulsionadas por juros reais elevados, aumento do fluxo de capital produtivo e um ajuste técnico após a forte volatilidade registrada em dezembro.

Esse desempenho ocorre em contraste com o enfraquecimento das moedas conversíveis, pressionadas por tensões geopolíticas crescentes. No caso do Brasil, fatores como o avanço do processo de desinflação, a estabilidade da política monetária e um saldo comercial robusto vêm funcionando como um amortecedor relevante. Essa combinação tem atraído recursos externos e contribuído para uma trajetória mais equilibrada do câmbio.

Real e dólar: valorização persiste apesar da força global da moeda americana

A semana começou com o dólar cotado a R$5,4099 na segunda-feira, 05 de janeiro, valor 2,8% abaixo da abertura observada em 29 de dezembro. Ao longo dos dias seguintes, a moeda americana perdeu força frente ao real, encerrando a abertura do pregão desta sexta-feira, 09 de janeiro, em R$5,3881. Esse patamar representa queda de 1,0% em relação à abertura da sexta anterior, 02 de janeiro.

Considerando o intervalo entre a abertura da sexta-feira, 09 de janeiro, e a segunda-feira da semana anterior, 29 de dezembro, o real acumulou valorização de aproximadamente 3,2% frente ao dólar.

Esse movimento chama atenção porque ocorreu mesmo em um contexto de fortalecimento do dólar no mercado internacional. O índice DXY avançou de forma consistente ao longo da semana, refletindo a valorização da moeda americana frente às principais moedas fortes. Ainda assim, o real e a maior parte das moedas latino-americanas conseguiram se apreciar.

Geopolítica pressiona moedas conversíveis, mas não interrompe ciclo do real

A valorização do dólar frente às moedas conversíveis tem relação direta com a deterioração do cenário geopolítico. Após operações militares na Venezuela, o presidente dos Estados Unidos declarou publicamente que uma ação semelhante na Colômbia não seria descartada. Paralelamente, Donald Trump voltou a questionar a integridade da OTAN ao defender, de forma retórica, a anexação da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca.

Mesmo diante desse ambiente de incerteza e do comportamento imprevisível do ex-presidente americano, o ciclo de valorização das moedas não conversíveis não foi interrompido. O real, assim como o peso colombiano, seguiu ganhando força.

No caso brasileiro, a explicação passa principalmente pelo nível elevado da taxa de juros, que se encontra no maior patamar em cerca de duas décadas. Soma-se a isso um movimento de correção técnica, após a desvalorização observada em dezembro.

Inflação mais baixa reforça fundamentos do real

Os indicadores de preços mais recentes reforçam o cenário de desinflação no Brasil. O IGP-DI de dezembro registrou alta modesta de 0,10%, sinalizando, em conjunto com outros índices de preços no atacado, um repasse inflacionário mais contido ao consumidor ao longo do primeiro semestre de 2026.

O IPCA de dezembro também confirmou essa tendência. A variação mensal de 0,33% levou a inflação acumulada em 12 meses para 4,27%, resultado abaixo do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.

Esse conjunto de dados fortalece a percepção de estabilidade macroeconômica e ajuda a sustentar o fluxo de capitais para o país.

Real e euro: moeda brasileira avança com correção de fluxos

Na segunda-feira, 05 de janeiro, o euro iniciou o pregão cotado a R$6,3554. Já na abertura desta sexta-feira, 09 de janeiro, a moeda europeia passou a ser negociada a R$6,2775. O movimento representa uma valorização do real de cerca de 1,2% frente ao euro no período.

No mercado internacional, o euro também apresentou leve enfraquecimento em relação ao dólar, interrompendo a trajetória de valorização observada anteriormente. A cotação passou de US$1,1721 no início da semana para US$1,1645 nesta sexta-feira, o que equivale a uma desvalorização aproximada de 0,6%.

A apreciação do real frente ao euro reflete, novamente, um processo de correção após a desvalorização abrupta registrada em dezembro. Parte desse movimento anterior teve origem especulativa, e o mercado agora ajusta os preços diante de um fluxo mais consistente de capital direcionado ao Brasil.

A leitura de que dezembro poderia repetir o padrão de saída de recursos observado no mesmo período de 2024 não se confirmou. O que se viu foi uma retirada de capital mais moderada, combinada com um desempenho expressivo da balança comercial e com a intensificação do investimento produtivo no país.

Zona do euro e inflação controlada abrem espaço para cortes de juros

Na Europa, dados preliminares de inflação apontam desaceleração dos preços na comparação anual. A inflação cheia da Zona do Euro alcançou exatamente 2%, nível que coincide com a meta do Banco Central Europeu.

Esse cenário reforça a expectativa de novos cortes de juros ao longo de 2026, o que tende a reduzir a atratividade relativa da moeda europeia frente a divisas de países com juros reais elevados, como o Brasil.

Real e libra esterlina: segunda semana consecutiva de ganhos

A libra esterlina iniciou o pregão da segunda-feira, 05 de janeiro, cotada a aproximadamente R$7,2990. Na abertura desta sexta-feira, 09 de janeiro, a cotação recuou para cerca de R$7,2374. O resultado foi uma valorização do real de aproximadamente 0,8% frente à moeda britânica ao longo da semana.

Em relação ao dólar, a libra manteve a trajetória de enfraquecimento observada anteriormente. A moeda britânica passou de US$1,3468 no início da semana para US$1,3436 nesta sexta-feira, o que representa uma desvalorização de 0,2%.

O real, portanto, acumulou ganhos não apenas frente ao dólar e ao euro, mas também em relação à libra esterlina. Enquanto a moeda britânica perdeu força diante do dólar em meio ao aumento da aversão ao risco global, o real avançou sobre ambas.

Juros reais elevados seguem como principal suporte do real

A sustentação do real continua fortemente associada à taxa de juros. Embora a Selic esteja estável há vários meses, os juros reais seguem em trajetória de alta devido à desaceleração consistente da inflação.

O IPCA encerrou 2025 em 4,27%, dentro do intervalo de tolerância da meta e quase dois pontos percentuais abaixo da média observada nos últimos 15 anos. Esse aumento dos juros reais, resultado da postura firme do Copom e da queda dos preços ao consumidor, tem sido determinante para atrair capital estrangeiro.

Esse fluxo contribui para o movimento de correção do câmbio observado após a volatilidade de dezembro.

Perspectivas para o câmbio nas próximas semanas

Mesmo diante de sinais claros de desaceleração da atividade econômica e da inflação no Brasil, o Comitê de Política Monetária pode optar, mais uma vez, por manter a taxa básica de juros na reunião programada para este mês.

Ainda que o Copom inicie um ciclo de cortes na primeira reunião de 2026, a redução não deve ser suficiente para retirar o Brasil do grupo de países com os maiores juros reais do mundo.

Nesse contexto, a taxa de juros tende a continuar funcionando como um vetor de valorização do real no curto prazo.

Essa projeção, no entanto, exige cautela. O agravamento das tensões geopolíticas pode ampliar a aversão ao risco nos mercados globais, o que costuma penalizar moedas menos líquidas que o dólar, como o real.

Leia também:

Como bancos centrais “conversam” entre si e por que isso mexe com o câmbio

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *